Política de uso de IA
A política que ninguém lê não existe.
O documento de vinte páginas aprovado pelo comitê e ignorado por todo mundo é o desfecho mais comum de política de IA. O que separa uma política seguida de uma decorativa não é a completude: é uma regra de redação que quase ninguém aplica — toda proibição vem com a alternativa autorizada ao lado. Esta página traz o template inteiro para copiar e adaptar, com essa regra embutida.
O diagnóstico
Quatro motivos, e o primeiro responde pela maioria dos casos
O critério de qualidade de uma política de IA não é o que ela cobre. É a taxa de adesão — quantas pessoas mudam de comportamento por causa dela. Por esse critério, quase toda política em vigor hoje falhou, e as causas se repetem.
Proíbe sem oferecer caminho
"Não cole dado de cliente em ferramenta pública" sem dizer onde colar não muda comportamento: empurra o uso para fora da vista. É assim que o shadow AI nasce dentro de empresa que tem política.
É longa demais para ser lida
Vinte páginas de linguagem jurídica não são lidas por quem precisa aplicá-las às três da tarde, no meio de uma entrega. Não lida equivale a não existir.
Não tem prazo de resposta a exceção
Quem tem prazo de projeto contorna a regra que demora. Sem compromisso de resposta em dias, o pedido de exceção deixa de ser feito — e o uso acontece assim mesmo.
Foi copiada sem adaptação
Template publicado com exemplos genéricos é reconhecido na primeira leitura. Política que parece genérica não é levada a sério, e o resto do documento cai junto.
O núcleo
Sem classificação de dado, toda regra vira genérica
É a parte que faz a política funcionar na prática. Enquanto a regra falar de "dado sensível" sem dizer o que é, cada pessoa decide sozinha — e decide a favor da entrega que está atrasada. Três níveis bastam.
| Nível | O que é, e o que pode entrar em ferramenta de IA |
|---|---|
| Público | Livre material já publicado pela empresa, conteúdo de marketing, informação de domínio público. Pode ir para qualquer ferramenta, inclusive gratuita. |
| Interno | Só em ferramenta autorizada processo, documentação, código não proprietário, texto administrativo sem dado pessoal. Vai apenas para as ferramentas da lista aprovada, com conta corporativa. |
| Restrito | Só no ambiente privado dado pessoal, contrato, base de clientes, informação financeira não divulgada, código proprietário, segredo de negócio. Só na instância privada sob o AI Gateway, nunca em conta pessoal. |
| Regra que resolve a dúvida | Na incerteza, trate como restrito e pergunte. E o pedido precisa ter resposta em dias, não em semanas — é isso que faz alguém perguntar em vez de decidir sozinho. |
O template
Copie, substitua o que está entre colchetes, publique
O texto abaixo é o que a Tyna usa como ponto de partida em projeto. Ele é curto de propósito. Três substituições são obrigatórias antes de publicar: a lista real de ferramentas autorizadas, exemplos de dado restrito com nomes de sistemas que as pessoas reconheçam, e o nome de quem responde por exceção.
Seções 1 a 3 Alcance, dado e ferramentas
-
Objetivo e alcance
A quem se aplica — colaboradores, estagiários, terceiros e prestadores com acesso a sistemas da empresa — e a que se aplica: qualquer ferramenta que gere texto, imagem, áudio, código ou decisão, contratada ou gratuita.
-
Classificação de dado, com exemplos da casa
Os três níveis da tabela acima, com exemplos nomeados: o nome do CRM, o nome da pasta de contratos, o sistema onde ficam os dados de cliente. Exemplo genérico não é reconhecido, e o que não é reconhecido não é aplicado.
-
Ferramentas autorizadas e como pedir uma nova
A lista, curta, com o que cada uma pode receber. E o caminho para pedir a inclusão de outra, com prazo de resposta declarado. Lista fechada sem porta de entrada envelhece em semanas e vira letra morta.
Seções 4 e 5 O que não pode, e o que fazer no lugar
-
Proibições, cada uma com a alternativa ao lado
É a regra de redação que decide o resultado. Não existe linha proibindo algo sem, no mesmo parágrafo, o caminho autorizado para a mesma necessidade. Se não houver alternativa possível, a proibição precisa explicar por quê — senão ela é ignorada e leva as outras junto.
Proibição sem alternativa não reduz o uso: só reduz o que a empresa consegue enxergar -
Conteúdo gerado por IA
Revisão humana obrigatória antes de qualquer uso externo, responsabilidade de quem publica, e a regra sobre número: dado, valor e prazo citados em material que sai da empresa vêm de sistema, nunca do modelo.
Seções 6 e 7 Agentes, incidentes e quem responde
-
Agentes e automações passam por aprovação separada
Política governa pessoas; agente age sozinho e exige outro escopo. A política aponta para o processo de revisão — as dez perguntas antes de um agente ir ao ar —, não tenta cobrir o assunto em um parágrafo.
-
Papéis, prazo de exceção e canal de incidente
Nome do dono da política, prazo máximo para responder a um pedido de exceção, e como reportar um incidente — com a anistia declarada por escrito para quem reporta. Sem anistia, ninguém reporta, e a empresa fica sabendo pelo cliente.
POLITICA DE USO DE INTELIGENCIA ARTIFICIAL — [NOME DA EMPRESA]
Versao 1.0 · Vigencia a partir de [DATA] · Revisao a cada 90 dias
Modelo publicado por Tyna (tyna.com.br/politica-de-uso-de-ia/) para adaptacao livre.
1. OBJETIVO E ALCANCE
Esta politica define como as ferramentas de Inteligencia Artificial podem ser usadas
em [NOME DA EMPRESA]. Aplica-se a colaboradores, estagiarios, terceiros e prestadores
com acesso a sistemas ou informacoes da empresa. Aplica-se a qualquer ferramenta que
gere texto, imagem, audio, video, codigo ou decisao — contratada ou gratuita, no
computador da empresa ou em dispositivo pessoal usado para trabalho.
O objetivo nao e restringir o uso de IA. E tornar o uso seguro e visivel.
2. CLASSIFICACAO DA INFORMACAO
PUBLICO — material ja publicado, conteudo de marketing, informacao de dominio
publico. Pode ser usado em qualquer ferramenta de IA.
INTERNO — processo, documentacao, texto administrativo e codigo nao proprietario,
sem dado pessoal. Somente nas ferramentas autorizadas da secao 3, com conta
corporativa. Exemplos em [NOME DA EMPRESA]: [CITAR 2 OU 3 SISTEMAS REAIS].
RESTRITO — dado pessoal de cliente ou colaborador, contrato, base de clientes,
informacao financeira nao divulgada, codigo proprietario, segredo de negocio.
Somente no ambiente privado indicado na secao 3. Exemplos em [NOME DA EMPRESA]:
[CITAR O CRM, A PASTA DE CONTRATOS, O SISTEMA DE RH PELO NOME].
NA DUVIDA: trate como RESTRITO e pergunte a [NOME/AREA]. A resposta sai em ate
[N] dias uteis.
3. FERRAMENTAS AUTORIZADAS
[FERRAMENTA A] — pode receber informacao PUBLICA e INTERNA. Acesso por [COMO].
[FERRAMENTA B] — pode receber informacao PUBLICA e INTERNA. Acesso por [COMO].
[AMBIENTE PRIVADO / GATEWAY] — unico caminho autorizado para informacao RESTRITA.
Acesso por [COMO].
Para pedir a inclusao de uma ferramenta nova: [CANAL]. Resposta em ate [N] dias
uteis, com decisao justificada.
4. O QUE NAO PODE — E O QUE FAZER NO LUGAR
Cada regra abaixo traz a alternativa autorizada. Se voce encontrar uma necessidade
sem alternativa nesta lista, isso e uma falha da politica: avise [CANAL].
4.1 Nao inserir informacao RESTRITA em ferramenta publica ou conta pessoal.
No lugar: use [AMBIENTE PRIVADO / GATEWAY], que aceita esse tipo de dado.
4.2 Nao contratar ferramenta de IA com cartao pessoal ou cartao corporativo sem
passar por [CANAL].
No lugar: peca a inclusao pela secao 3; o custo passa a ser da empresa.
4.3 Nao conceder a ferramentas de IA acesso a e-mail, agenda ou arquivos
corporativos por "entrar com Google/Microsoft" sem aprovacao.
No lugar: solicite a integracao por [CANAL], que avalia o escopo pedido.
4.4 Nao usar IA para decidir sozinha sobre pessoas — contratacao, desligamento,
avaliacao, credito, disciplina.
No lugar: use como apoio, com decisao registrada e assinada por uma pessoa.
4.5 Nao publicar conteudo gerado por IA sem revisao humana.
No lugar: revise, confira os numeros na fonte e assuma a autoria.
5. CONTEUDO GERADO POR IA
5.1 Toda saida usada fora da empresa passa por revisao humana. A responsabilidade
e de quem publica, nao da ferramenta.
5.2 Numero, valor, prazo e nome citados em material externo vem de sistema da
empresa, nunca do modelo.
5.3 Ao usar IA em entrega para cliente, siga o que o contrato exige sobre
divulgacao. Na ausencia de clausula, consulte [AREA JURIDICA].
5.4 Material de terceiros nao entra em ferramenta de IA sem verificar a licenca.
6. AGENTES E AUTOMACOES
Fluxo de IA que age sozinho — responde cliente, altera registro, dispara
mensagem, aprova ou recusa — nao e coberto por esta politica e exige aprovacao
separada por [AREA], antes de entrar em producao. O roteiro de revisao esta em
tyna.com.br/governanca-de-agentes/ (dez perguntas).
7. PAPEIS, EXCECOES E INCIDENTES
Dono desta politica: [NOME, CARGO].
Excecoes: pedidas por [CANAL], respondidas em ate [N] dias uteis, registradas com
prazo de validade.
Incidentes (dado restrito enviado por engano, resposta errada publicada, conta
pessoal usada para trabalho): reporte imediatamente por [CANAL].
ANISTIA: ninguem sera punido por reportar um incidente nem por declarar uso
anterior a esta politica. O objetivo e corrigir rapido, nao encontrar culpado.
8. VIGENCIA E REVISAO
Vigencia a partir de [DATA]. Revisao a cada 90 dias, sob responsabilidade do dono
da politica. Ferramenta de IA muda mais rapido que ciclo anual de norma interna.
Depois de escrever
Quatro passos entre o documento pronto e o comportamento mudado
Publicar na intranet e mandar um e-mail é o método mais usado, e o de menor efeito. O que muda comportamento é outra coisa.
Ter a alternativa pronta antes de anunciar a regra
Se a instância privada ainda não existe no dia do anúncio, a política nasce como proibição pura — e proibição pura empurra o uso para o celular pessoal, onde não há registro nenhum.
Anunciar com anistia, por escrito
Ninguém será punido pelo uso anterior à política nem por reportar incidente. Sem isso, o time não declara o que já usa, a empresa não descobre o que existe e a política passa a valer sobre um mapa incompleto.
Mesma regra que faz o mapeamento de shadow AI funcionar — e pelo mesmo motivoResponder exceção em dias, não em semanas
O prazo de resposta é a parte da política que mais influencia adesão. Quem tem entrega para segunda-feira não espera duas semanas por autorização: contorna e segue.
Revisar a cada 90 dias
Ferramenta de IA muda recurso, termos de uso e política de treinamento em prazo menor que o ciclo anual de norma interna. Política que cita uma versão que não existe mais perde autoridade — e leva o resto do documento junto.
Perguntas frequentes
Política de uso de IA, em resposta direta
O que precisa ter em uma política de uso de IA?
Sete partes, e nenhuma delas é longa. Objetivo e alcance, dizendo a quem a política se aplica. Classificação de dado em três níveis, com o que pode entrar em qual categoria de ferramenta. A lista de ferramentas autorizadas e o caminho para pedir uma nova. As proibições, cada uma com a alternativa autorizada ao lado. As regras para conteúdo gerado por IA, incluindo revisão humana antes de uso externo. A regra para agentes e automações, que exigem aprovação separada. E os papéis: quem é o dono da política, em quanto tempo um pedido de exceção é respondido e como se reporta um incidente.
Por que a maioria das políticas de uso de IA não é seguida?
Porque proíbem sem oferecer caminho. Uma política que diz para não colar dado de cliente em ferramenta pública, sem dizer onde colar, não muda o comportamento: empurra o uso para fora da vista, que é como o shadow AI nasce. As outras causas comuns são tamanho, porque documento de vinte páginas não é lido e não lido equivale a não existir, e ausência de prazo de resposta a exceção, porque quem tem prazo de projeto contorna a regra que demora a responder. O critério de qualidade de uma política não é a completude do documento: é a taxa de adesão.
Dá para usar um template de política de uso de IA pronto?
Como ponto de partida, sim, e é para isso que o template desta página existe. Mas ele só funciona depois de três adaptações que ninguém pode fazer no seu lugar: a lista de ferramentas realmente autorizadas na sua empresa, os exemplos de dado restrito com nomes de sistemas que as pessoas reconheçam, e o nome de quem responde por exceção. Template publicado sem essas três substituições é reconhecido como genérico na primeira leitura, e política que parece genérica não é levada a sério.
Política de uso de IA cobre agentes autônomos?
Não, e tratar como se cobrisse é um erro comum. Política de uso governa pessoas usando ferramentas: se alguém escreve um prompt ruim, uma pessoa lê a resposta e descarta. Agente autônomo age em nome da empresa sem leitor intermediário, respondendo ao cliente ou alterando registro, e exige controles próprios: escopo de autonomia, guardrail aplicado em execução, escalonamento humano e trilha de auditoria. O que a política deve conter sobre agentes é a regra de que eles passam por aprovação separada, com o roteiro de revisão correspondente.
Com que frequência a política de uso de IA deve ser revisada?
A cada trimestre, e não a cada ano. Ferramenta de IA muda de recurso, de termos de uso e de política de treinamento em prazo muito menor que o ciclo anual de revisão de norma interna. Uma política que cita ferramentas por nome fica desatualizada em meses, e política desatualizada perde autoridade rápido: quando o time percebe que a regra fala de uma versão que não existe mais, o resto do documento também deixa de ser levado a sério.
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A classificação de dado da política só se sustenta se a base legal por finalidade estiver resolvida.
AI Gateway
É o "no lugar disso" de metade das proibições. Sem ele, boa parte da política vira regra sem caminho.
Próximo passo
Quer adaptar o template à sua operação?
Comece pelo diagnóstico: dez perguntas, três minutos, e as lacunas nomeadas uma a uma — inclusive as que a política sozinha não resolve.